Maid: violência doméstica e dependência financeira

Quando comecei a assistir Maid minha expectativa era baixa, quase nula. Raramente assisto uma série que me arrebata, me inspira e faz repensar conceitos. Sobretudo com a qual me identifico de alguma forma. Assim foi com o Gambito da Rainha, você lembra da série?

Entretanto a minissérie da Netflix Maid me arrebatou e é muito mais que uma história. Sim, com “h”. A série foi inspirada nas memórias de Stephanie Land, Maid: Hard Work, Low Pay and a Mother’s Will to Survive.

Os produtores da série, depois de comprados os direitos, a disponibilizaram com apenas 10 capítulos que você pode assistir no provedor de streaming.

Atenção: spoiler. Se você ainda não viu a série não leia o post.

Maid: série da Netflix. Fonte da imagem revista crescer – foto divulgação

Já começa com uma cena eletrizante na qual Alex (Margaret Qualley) foge com sua filha Maddy do pai abusivo da criança, Sean (Nick Robinson). Uma jovem mãe, desesperada e sem opções, foge o mais rápido que pode de um passado que é super presente.

Sem ninguém de confiança a quem recorrer para obter ajuda e com apenas alguns dólares em seu nome, Alex luta para decidir o que fazer a seguir.

Por falar em dinheiro, cada vez que o saldo baixa aparece na tela do lado direito com o som de caixa registradora – sacada genial.  

Alex está sem casa, na rua, e como a maioria das moradias exige um comprovante de emprego, o que ela não consegue sem creche. Que por sua vez, ela não consegue sem emprego. Um ciclo interminável.

Inúmeros formulários preenchidos, tempo gasto e exasperação (do telespectador) são uma constante na série. A protagonista, entretanto, exibe uma calma impressionante.

Ela é uma escritora, embora tenha a síndrome do impostor, escreve e, muito bem, diga-se de passagem. Havia recebido uma bolsa para cursar a faculdade de Minesota, mas não seguiu o planejado. A vida surpreendendo e nos tirando do rumo.

A protagonista se vê destituída de um teto, com uma filha nos braços e sem dinheiro algum.

A independência financeira é crucial para todos, mas para as mulheres é mais ainda. Liberdade e autonomia estão diretamente ligadas a independência. Quando você depende de alguém, seja para o que for, você se torna refém de seus humores e destemperos.

Se você depende de dinheiro de outro para viver é a dependência financeira, e a emocional?

Nesse contexto você tem receio de perder a outra pessoa, acha que a vida pode acabar sem ela.

E o próximo passo é se tornar submissa, emocionalmente, a fim de não ser abandonada.

O refém emocional não tem vontade, opinião, planos, vivendo sempre em função de agradar ao outro para não ser deixado. Discordar do outro não é uma opção e no lugar do respeito e da troca de afeto se instala a dependência emocional.

De igual maneira, o dependente emocional exige que a outra pessoa dedique todo o seu tempo livre somente para ele. Recorre a manipulações e chantagens emocionais para fazer com que o outro desmarque compromissos, deixe de socializar e evite passar muito tempo junto a família.

A pessoa se vê isolada. Ou a família já é disfuncional (como no caso de Alex) e ela já está ilhada, assim o chantagista se aproveita da conjuntura para afastar – ainda mais, excluir a pessoa do convívio de amigos, conhecidos e até mesmo parentes.

Qual o objetivo?

Exercer controle.

Maid : série da Netflix. Fonte da imagem: revista crescer

Muitas vezes as atitudes vem embrulhadas em papeis fofos – aqueles com unicórnios e balõezinhos rosa. Ele checa meu facebook e insta? Ah, é cuidado. Ele me liga o tempo todo querendo saber onde eu estou? Está preocupado comigo. Ele é ciumento porque me ama muito. E assim por diante.

Outras vezes elas são escancaradas: desprezo e rejeição pelas conquistas da parceira, por exemplo. Juntamente com um interrogatório, digno de policial, das atividades realizadas e os horários durante o dia.

De natureza igual a prática constante do gaslighting – abuso que atinge as mulheres de forma sutil, mas muito grave. Onde o homem distorce, omite ou cria informações, fazendo com que a mulher duvide de si mesma, da sua capacidade e às vezes até da sua sanidade.

Sabe aquela frase corriqueira? Você está louca! Pois.

O objetivo é deixar a vítima desorientada com o uso de informações distorcidas, selecionadas estrategicamente.

O resultado é que o dependente emocional se torna prisioneiro. Das palavras, gestos, consensos e opiniões do parceiro. E vai perdendo a identidade, até que comportamentos que lhe causam dor são descartados, como sendo de menor importância.

Alex, da série Maid, é dependente financeira e emocionalmente.

Outros fatores entram em cena: uma mãe bipolar e não diagnosticada – como ela coloca em um determinado momento da série, um pai ausente que era alcoólatra e abusivo. Exatamente como o marido Sean.

Entra a questão do padrão. Ela se casou com um o “pai”, em outras palavras, alguém exatamente como a figura masculina de sua infância.

Repetimos os padrões que nos são ensinados, como o de receber um “amor” tóxico, ainda que inconscientemente. Não nossa damos conta do que acontece, especialmente em meio ao turbilhão de emoções que a saída de casa gera.

É humanamente impossível chegar a qualquer conclusão quando você está no olho do furacão, procurando abrigo da tempestade que te pegou desprevenida.

A única coisa que você pode contar é com o instinto de sobrevivência. Ele te impele para frente, e no caso de Alex, além dele, a filha.

Maid : série da netflix. Fonte da imagem Cine Pop.

Ela não quer perder a guarda da filha, o amor construído, o tudo para ela. A razão de viver.

Depois de uma tentativa bem-sucedida em busca da indepedência – começou a fazer faxinas e juntou algum dinheiro – ela se deixa levar pela suposta mudança do marido, que se mostra compreensivo e amável – a princípio – e volta para casa.

O comportamento tóxico do esposo volta a se repetir, o que não é incomum.

Alcoolismo é uma doença e deve ser tratada, mas até que ponto os que convivem com o alcoólatra são responsáveis por isso?

Nenhum.

Cada um é responsável pela sua salvação – como diz a Bíblia. Como bem colocado me um determinado episódio, quando Alex se questiona que a mãe só a tem, a responsável pelo abrigo pergunta: se ela não tiver você o que vai acontecer? E se você não estiver lá?

As pessoas arrumam um jeito de viver e sobreviver, não somos imprescindíveis como pensamos ou queremos ser (precisamos ser?).

Qualquer relacionamento que oprime, desrespeita e humilha, seja amoroso ou de amizade, não é saudável. Não importa se a relação é consanguínea – pai, mãe, irmão, irmã. Um relacionamento que falte respeito merece ser deixado. E rápido.  

Os laços consanguíneos, em teoria, são razões suficientes para amar alguém. Quando isso não acontece, a pessoa tenta mostrar para si que é capaz de receber amor. Não entre em qualquer roubada para provar nada para ninguém, nem para você mesma.

Você merece uma nova chance.

Além disso o receio de ficar sozinha, especialmente na mulher, é enorme.

Ela permanece em casamentos mornos, sem sustento emocional ou base moral com o objetivo de não ficar solitária.

O medo, por exemplo, de ficar só no leito de morte ou de ficar doente e não ter ninguém para levar ao hospital ou ainda, para acudir num momento de necessidade extrema, paralisa a mulher e a mantém refém – muitas vezes – da violência doméstica.

E, tendo se isolado dos amigos, conhecidos e familiares, o pavor só aumenta.

Identificar uma personalidade controladora é uma tarefa ingrata. Por vezes, entramos em negação, não queremos admitir que o parceiro tão esperado ou aquela amizade de longa data não é que esperávamos.

Mais do que isso: não queremos admitir que erramos, que não vimos o que acontecia debaixo do nariz. Quão idiota eu sou?

Contudo a vida não é cor de rosa. Ela tem vários tons e entre o branco e o preto há diversos matizes.

Cabe a você observar e ficar atenta aos sinais. E, para isso, nada melhor que usar a única arma disponível: a intuição, como diz a Clarissa Pínkola Estés no livro Mulheres que correm com os Lobos:

A intuição prevê a direção mais benéfica a seguir. Ela se autopreserva, capta os motivos e intenções subjacentes e opta pelo que irá provocar o mínimo de fragmentação na psique. ela tem ouvidos que ouvem sons fora da capacidade de audição do ser humano.

Com essas espantosas ferramentas psíquicas, a mulher assume uma consciência animal astuta e até mesmo premonitória, que aprofunda sua feminilidade e aguça sua capacidade de se movimentar com confiança no mundo exterior

Alex entrou em depressão profunda muito bem ambientada – deitada no fundo de um poço. Ou nas palavras de Silvia Plath no belíssimo livro a Redoma de Vidro:

Para a pessoa dentro da redoma de vidro, vazia e imóvel como um bebê morto, o mundo inteiro é um sonho ruim”

E, para sair do buraco, você sabe: só cavando.  E, depois de cavar, ela exibe sinais de transtorno pós-traumático, o que é esperado.

Não existe fórmula mágica para superar a depressão. A única coisa que você pode fazer é procurar ajuda, se possível. Terapia é mais do que aconselhável e – para mim – escrever é uma forma de entender o que se passa comigo.

Como são e como se deram os processos, eu vejo o que está escrito e tenho diversos insights: antes, durante e depois. O Mochilando com as Deusas foi parte de um processo de entendimento, por assim dizer. Comecei escrevendo o que se passava comigo naquele momento.

Escrever é lidar com incertezas, traumas, tristezas, lutos e sim: depressão. Eu não escapei do monstro de olhos negros.

Um lembrete: utilizamos links associados, se você comprar por aqui receberemos uma pequena comissão, ok?

Faço exercícios físicos, tento meditar todos os dias, melhoro os alimentos que consumo – a fim de evitar medicação, mas já estive no buraco profundo, caminhando na neblina com a visão embaçada pela dor e abraçada aos meus joelhos. Incapaz de dar um passo e sem nenhuma perspectiva de melhora.

Conheço a dor de Alex. Identifico-me com ela.

Ler, entender, buscar aconselhamento foram os caminhos que eu segui. E, sobretudo, como já mencionei acima: escrever. Mantenho uma espécie de diário de bordo – como gosto de viajar e encaro a vida como uma jornada de aprendizado, “de bordo” me parece o ideal.

Com ele eu cruzo pontes, refaço a rota e manejo melhor o mapa. Ele é meu Norte. Me aponta o que devo ajustar, me confrontar – sombra, sua danadinha! – e vou descobrindo novos caminhos ao longo das sentenças, que juntas formam o meu final.

Um final temporário.

Aprendi que não controlo o futuro, somente minha reação no agora, que a jornada jorra surpresas inusitadas, solavancos e somente com muita paciência consigo concluir: o diário e o dia.

Aproveitando o gancho dos “anônimos” é como diz a oração: um dia de cada vez. E, no meu caso: uma palavra por vez.

Quem sabe como Alex, me coloquei no rumo certo agora.

Você já viu a série Maid na Netflix? O que achou?

4 comentários sobre “Maid: violência doméstica e dependência financeira

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