Nada.
Domingo eu acordei com raiva. Tinha que lavar roupa, ir à academia, fazer mercado e cozinhar para a semana. Além de lavar a louça em looping e passear com o cachorro 2 vezes, pelo menos.

Entre uma obrigação e outra era preciso colocar gelo nos joelhos por 20 minutos – tenho *condromalácia patelar e quero fazer o campo base do Everest. Não vou entrar em detalhes sobre o tempo da compressa gelada, mas a maioria concorda que é essencial para aliviar a inflamação 20 minutos três vezes por dia.
O que eu faço com esses 20 minutos perdidos?
Faço uma meditação que dura exatamente o mesmo tempo. Leio algumas páginas do livro em inglês escolhido e escrevo nas notas do celular – estou fazendo isso nesse exato momento enquanto os joelhos adormecem e o gelo faz sua mágica.
Leio em inglês para aumentar meu vocabulário – anoto as palavras que não conheço, os phrasal verbs (desgraçados) novos ou aqueles que não tenho certeza dos significados, faço sentenças com eles. A leitura não é prazerosa como aquele livro de suspense ou mitologia em português para passar o tempo, leio para estudar. No momento lendo Quiet Power escrito pela Susan Cain.
Medito porque é uma forma de controlar a ansiedade. 220 por minuto não é modo de vida. Fico bem mais tranquila durante o dia quando medito pela manhã. Se quiser uma meditação guiada recomendo a Raíssa Zoccal do canal Yoga Mudra (voz suave e sotaque reconhecido por mim como padrão)
Escrevo porque preciso fazê-lo melhor. Practice makes perfect. Se não leio e não escrevo nunca vou desenvolver a habilidade de forma a me tornar uma profissional decente. Sim, tenho livros publicados, mas acredite em mim: permaneço uma aprendiz. Nunca será suficiente o número de posts ou artigos que escrevo. E, leva tempo. Para fazer melhor é preciso fazer sempre.
Veja que todas as três são obrigações.
Ler, escrever e meditar não são responsabilidades tão chatas quanto limpar a geladeira, lavar as cortinas, abrir as portas dos armários todos os dias – para o mofo não se instalar. Floripa : mofo faz parte da sua vida. Mas são tarefas. Para minimizar o efeito do tempo perdido com o gelo nos joelhos, escolho coisas que me dão um certo prazer pelos benefícios a médio prazo alcançados.
Mas por que estou falando sobre *procrastinação hoje?
Primeiro porque se eu tivesse procrastinado no domingo (a ira teria vencido) não estaria escrevendo este post. Segundo porque tenho uma aluna que procrastina.

Na semana passada ela me disse: eu estou muito solta. Você tem que passar quais exercícios eu devo fazer e uma data específica de entrega.
Fiz isso. Passei a página exata dos exercícios, compartilhei a tela, mostrei um a um – ela até tirou uma fotografia!
Adivinha o que aconteceu na última aula?
Ela não entregou os exercícios. Começou um deles e largou no meio.
O curso é personalizado e tem a promessa de fazer o aluno falar fluentemente em um ano. Assim tenho uma programação – que varia de aluno a aluno, mas está lá agendada na pasta de cada um – tenho um arquivo com o nome e o progresso do estudante. Se o aluno não estuda em casa não progride. Simples assim. E eu não entrego o que prometi. Lá se vai minha reputação.
Decidi abordar o problema de outra forma.
Na aula – que ela não entregou os exercícios- eu fiz o listening (7 minutos de uma TED talk que já havia enviado umas 2 semanas antes) fiz ela anotar e na sequência fiz perguntas.
Tentei mostrar a ela a “perda de tempo” por não ter feito o exercício antecipadamente. Roubou meia hora da aula. Meia hora que poderíamos estar revisando vocabulário, aprendendo o próximo tópico, consertando preposições e fazendo o Present Perfect entrar na cabeça ou estudando novos Phrasal Verbs (malditos).
Percebi que isso não era suficiente.
Separei uma TED Talk – você pode ver aqui – com gráficos, desenhos, no melhor estilo TED: engraçada e engajada. Uma das top 8 na verdade. Combinei com um artigo da universidade de Adelaide – sempre com tutoriais apropriados – clique aqui para ler. Enviei por e-mail e para não dizer que não falei das flores – mandei uma mensagem no WhatsApp.
Vai resultar em alguma coisa? Só o tempo dirá.
Na TED Talk mencionada o palestrante fala que não há não procrastinadores. Ele defende sua tese de maneira eloquente – não vou dar spoiler. Assista, vale seu tempo.
O fato é que nos distraímos de propósito – durante a realização de uma função – para ganhar tempo e não finalizar o serviço desagradável. Isso é contraproducente. Você fica feliz naquele momento, mas logo se arrepende. É apenas um ganho imediato – que gera remorso após algumas horas – ou dias.
Ficamos com raiva. Lembrou de mim no domingo?

Mas se fizermos o desagradável primeiro teremos mais tempo para assistir aquele episódio da série do momento, para ver vídeos de cachorros fofos e passear na beira mar norte no sol poente de outono.
E não, esse post não é um desperdício do seu tempo. Seguem 7 dicas práticas para domar a procrastinação:
1. Faça mesmo com ódio – seu futuro eu vai te agradecer.
2. Comece pelo pior: As obrigações mais chatas devem ser feitas primeiro para se livrar delas – alguns dizem para colocar no meio do dia, como nessa master class aqui. Eu que sou mais produtiva de manhã prefiro fazer logo cedo.
3. Anote na agenda os benefícios de cada uma delas. Por exemplo: fazer mercado e cozinhar para a semana – economia de dinheiro e tempo. Comer saudável = comprar menos remédio (ou nenhum) e não engordar à toa.
4. Coloque prazos alcançáveis– você mesmo – não delegue para os outros aquilo que deve ser feito por você que entende sobre sua agenda melhor que ninguém. As metas tem que ser reais e de acordo com o tempo disponível.
5. Elimine as distrações – vai fazer o exercício? Coloque o celular no modo avião e de preferência bem longe de você. Você não é médico que está de plantão – uma hora sem celular nunca matou ninguém.
6. Faça intervalos – sempre digo aos meus alunos para não estudarem por mais de uma hora – não é produtivo. Há uma técnica que se chama pomodoro – mais informações aqui. Se for fazer algo por muito tempo dê-se um tempo. Por exemplo 10 minutos – alongue-se, tome água, beije seu cachorro ou gato – ou você mesmo.
7. Dê-se recompensas: tome um sorvete ou coma uma fatia de bolo com um café quentinho. Pão de queijo, brigadeiro – o que te faz feliz. Depois que terminar um projeto se presenteie com um agrado. O sistema de recompensa funciona muito bem como mencionado no livro 7 hábitos das pessoas eficazes – que eu recomendo.
Outra leitura fundamental é Eat that Frog . No livro o autor menciona que as pessoas bem-sucedidas se concentram em suas tarefas mais importantes e as realizam.
Eat the frog (não é comer um sapo literalmente) é uma técnica de produtividade que te ajuda a manter-se concentrado nas tarefas mais importantes para alcançar as metas de longo prazo mais rápido. Ela funciona identificando uma tarefa importante para o dia e fazendo-a primeiro, antes de passar para qualquer outra.
Por falar em produtividade, perceba que não falei sobre usar uma agenda ou baixar um aplicativo (google agenda, calendar, lembretes, etc.) eu sei que você já usa um ou mais de um deles.
Também não mencionei os motivos pelos quais procrastinamos, mas a questão pode estar ligada à depressão, ansiedade, baixa autoestima, TDAH e maus hábitos. A procrastinação está ligada a riscos para a saúde mental e até mesmo doenças físicas e as pessoas que procrastinam tendem a ter altos níveis de ansiedade, bem como pouco controle de impulsos.
Acredito que cada um tem seus motivos (todos válidos) e eles são subjetivos. Não tem como mensurar ou adivinhar porque você que está lendo procrastina (se é que o faz), quem sabe a resposta é quem calça os sapatos. Apertados ou não só você pode dizer. Se quiser ler um pouquinho mais sobre o assunto – e de quebra melhorar o inglês – aqui está um excelente post.
Conversando sobre o assunto com outras pessoas, ouvi a seguinte frase diversas vezes: eu não tenho disciplina. Mas disciplina não é caráter ou integridade – que você nasce com eles. Não é genético. Você adquire e mantém disciplina: estabelece uma rotina, define metas e objetivos e pratica todo dia – santo ou não.
Domingo (o dia santo) eu estava com ódio, mas realizei todas as atividades elencadas na agenda. Depois comi um brigadeiro – daqueles grandes.

Não é fácil, gostoso nem prazeroso. Por vezes você vai lutar contra sua preguiça, até mesmo seu cansaço. Mas lembra que uma das dicas é colocar ao lado da tarefa o benefício que você alcança? Então: fique de olho no lucro. Relembre suas metas. Escreva seus sonhos e releia a cada 15 dias pelo menos.
Mantenha o resultado na mira. É ele que vai te fazer acordar mais cedo, ir para a academia, estudar o idioma que você tem adiado ou terminar aquele projeto.
Sonhos criam disciplina.
E a última dica: durma com a pia limpa e a cafeteira no jeito para fazer o café. Sua manhã agradece. Me diga: você procrastina?
* Hábito que temos de deixar as nossas tarefas para uma última hora
*A condromalácia patelar caracteriza-se pela degeneração da cartilagem articular da patela (ou rótula), um osso localizado na frente do joelho.
