Teoria da probabilidade: inspiração e ordem são mutuamente excludentes?

Sempre sonhei em escrever.

Sempre sonhei em escrever. Imagem: pixabay

Escrevia, mas jogava no lixo pensando não haver valor algum.

Desde os 11 anos.

Antes de escrever o Mochilando com as Deusas fazia terapia junguiana. A mitologia e a psicologia passaram a habitar o meu imaginário.

Com o tempo que restava comecei a pesquisar, ler, me envolver nos meandros do mundo de Joseph Campbell com o Herói de Mil Faces e no complexo universo de Jung.

O livro Mulheres que Correm com os Lobos chegou às minhas mãos por acaso.

Ou por sincronicidade, no dizer de Jung.

Mudou minha vida.

A maneira como a escritora conta as estórias, relata suas experiências pessoais, entrelaça ficção e realidade me fez acreditar que escrever é possível.

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Inspirei-me.

Inspirei e expirei.

Comecei a jornada com as deusas.

Recomecei, editei, revisei.

Lembrei das histórias de amigas, coloquei-as no livro.

Relatei viagens, contei os corações partidos e recontei mudanças.

Falei de autoconhecimento, entremeei Jung com a jornada pessoal, ele faz parte do processo.

Bordei sonhos, alinhavei projetos.

Bordei sonhos e alinhavei projetos. Imagem: pixabay

Quando publiquei o livro, algumas pessoas perguntaram: de onde vem a inspiração?

Eu não sabia responder.

Nunca havia pensado em um procedimento.

O que leva a fantasia ao papel?

Qual a estrada para a imaginação?

É rota comum, de todos conhecida? Ou um recôndito escondido, como um café no meio das árvores, que mal se avista da rua?

Tem um mapa para esse destino exótico?

Não sabia.

No livro A Guerra da Arte o escritor questiona:

…..imagens e ideias surpreendentes surgem como se saíssem do nada. Na realidade, esse, lampejos aparentemente espontâneos são tão formidáveis, que é difícil acreditar que nosso insignificante eu os tenha criado. De onde, então, vem nosso melhor material?

Ele argumenta que a inspiração é herdada de nossos ancestrais, portanto genética.

Que a musa – a qual ele clama pela presença em oração todos os dias – sussurra nos ouvidos daqueles que são talentosos já de nascença.

Só assim a inspiração produzirá uma obra, algo que seja digno de ser visto, lido ou cheirado.

Steven Pressfield define ainda o talento:

Chama-se talento: poder inato de descobrir a conexão oculta entre duas coisas-imagens, ideias, palavras – que ninguém nunca associou antes, criando para o mundo uma terceira obra, absolutamente única

Você fica esperando a inspiração chegar para escrever ou tem disciplina para produzir todos os dias?

A musa vai te pegar de surpresa ou você precisa estar preparado para ela?

Arrumar a casa, lavar o chão, limpar a escada.

Tirar sua melhor louça do armário para receber a visita tão desejada?

Eu escrevo todos os dias.

Ainda que seja nas notas do celular.

Se estou sem inspiração para um capítulo novo do livro, eu leio algo relacionado.

Estou gestando um novo material, então comprei algumas obras sobre o tema principal – religião.

Quando sinto que a página em branco não sai do lugar, que as teclas não começam a fazer o tilintar que encanta, eu leio.

Passo uma vista rápida pelas notas do celular, vejo o que anotei ontem.

Pensamento randômico, observação sobre um pedestre ou como me senti ao tomar aquele sorvete de pistache.

Anoto tudo.

Mesmo que seja apenas uma sentença. Uma palavra, um parágrafo.

Em geral não serve para nada, mas o exercício de escrever deve ser diário.

Na guerra da arte o escritor conta uma estória(ou história?) sobre Somerset Maugham, cuja obra mais conhecida é o Fio da Navalha.

Certa vez, alguém perguntou a Somerset Maugham se ele escrevia segundo um horário ou somente quando lhe vinha à inspiração. “Escrevo apenas quando a inspiração me vem”, respondeu. “Felizmente, ela vem toda manhã às nove horas em ponto.

Sentar-se e começar o labor.

Apenas esse ato mundano produz um resultado inesperado.

Como se as engrenagens começassem a funcionar em uma sequência infalível de acontecimentos que produzirão a inspiração.

Ela caminha de mãos dadas com a disciplina.

Dar condições para receber a inspiração é primordial. Se você não prepara o ambiente (interno e externo) ela não vem te visitar.

Preciso caminhar.

Levo Jake para passear. Imagem: arquivo pessoal

Saio cedo, antes que as pessoas acordem.

Levo o Jake (meu cachorro) para passear.

Ouço os pássaros, cheiro a grama, vejo o orvalho. Sinto meu corpo entrando num estado de calma profunda, de agradecimento até.

Mudei de cidade pois tinha fome de natureza.

Preciso de verde. De maresia. De cheiro de jasmim.

Caminhar não é exercício para o corpo.

É o despertador da minha mente.

Volto. Dou petisco para o Jake. Respiro.

Eu e Jake na jornada da vida . Imagem: arquivo pessoal

Penso nas tarefas domésticas.

Se tenho aula pela manhã me concentro nisso. Uma coisa por vez. Vejo o lembrete no celular. Checo a lista de tarefas.

Está tudo em ordem? Desligo o celular.

Sento-me para escrever. Não sai nada?

Leio 20 páginas de um dos livros, faço mais um capítulo do curso na EDX, passo no e-mail e vejo uma newsletter.

Escrever independe do resultado. O que vai sair? Não sei.

Não estou esperando o sucesso, gostaria, mas não é condição sine qua non.

Assim a possibilidade de fracasso não me paralisa.

Escrever é.

Se o foco for “o que os outros vão pensar” nunca vai realizar nada.

Não vai esculpir aquela madeira, barro ou argila. Não pegará o pincel desafiando a tela em branco.

Não escreverá conto, poesia e muito menos livro.

Os outros não te definem. Seu momento de vida não é quem você é.

Tudo é impermanência. Estamos aqui, não somos aqui.

Pode ser que mudemos de país, sejamos atropelados por um carro veloz, compremos uma bicicleta e ao invés de casar, nos divorciemos.

Impermanência é o que existe. O resto é ilusão.

Comprometa-se com sua arte.

Pinte, desenhe, rabisque. Sente e escreva.

Saia e compre pinceis.

Estabeleça um horário como se fosse para o trabalho, monte uma planilha ou desenhe uma escala na parede.

Compareça ao local de trabalho todos os dias, como se dependesse disso para viver.

Compareça ao local de trabalho todos os dias. Imagem: pixabay

Ainda que seja uma pincelada dê o ar da graça.

Faça as pazes com a autocrítica.

Nunca vai estar bom. Todos pensamos assim.

Esse material não é digno de postar. Ok. Então melhore-o.

Isso nem se parece com um capítulo.

Certo. Vá dar uma volta.

Deixe as palavras respirarem. Elas necessitam de liberdade para tomar fôlego, forma, conteúdo e renascerem com dignidade.

Qualquer desculpa que você utilizar haverá uma resposta adequada.

Não se sabote, e se o fizer, quando perceber dê meia volta.

Retome o caminho de casa, retorne para o conhecido, mas se exponha ao inusitado.

Os livros me inspiram, mas as pessoas ainda mais.

Interação é fundamental.

Seja para a criação de um personagem ou para digestão dos processos internos.

O outro usa óculos diferentes, de cores e armações que você nem imagina.

É por eles que você deve se expor ao mundo de vez em quando. É a cura para o daltonismo, ou pelo menos um placebo.

Tons diversos, cores que dançam, sons que incomodam.

Tudo pode ser inspiração, mas as pessoas são uma fonte inesgotável.

A inspiração vem do inconsciente, mas necessita de ordem para sair de lá.

Jake aguardando o passeio matinal. Imagem: arquivo pessoal

Tranquilidade, sossego, quietude de alma para sair do imaginário e desaguar na concretude do papel.

Saia da inércia. Produza.

A inspiração vai te visitar.

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