Lost in translation: o ilhéu tem outro idioma

Era para ser uma conversa de elevador, daquelas que você ouve garota de Ipanema instrumental ao fundo. Que os ingleses têm orgasmos múltiplos, mais ou menos assim:

-Tá frio hoje não?

-Pois é. A previsão era de sol.

-O tempo virou, parece que é uma frente fria que veio lá do sul.

-Pois.

-Você sabia…

Lá vem o mansplaining.

Chato, mas previsível.

Ele falava palavras aleatórias as quais eu tentava adivinhar o significado. Tarrafear, bacio, betara assado. Ok assado. É comida. Estou na praia, betara deve ser um peixe.

Por do sol na praia

Meu locatário falava sozinho e com quem quer que passasse na rua.

Jogava seus pensamentos no ar, o camarão que ele pescou na noite anterior e alfavaca do vizinho, dá um bom caldo. Ele está me oferecendo um caldo?

Você gosta de camarão? E começava um monólogo igual ao do Forest Gump: as diversas maneiras de preparar camarão.

Eu balançava a cabeça enquanto pensava como sair dali educadamente. Colei um pequeno sorriso com pancake no rosto, ajeitei as costas e disse: tenho que escrever. Até mais tarde!

Mudar de cidade, mesmo dentro do próprio país, é como adentrar em um destino estrangeiro por terra.

Carregue seu passaporte e tenha uma bússola nas mãos. Não esqueça de baixar o mapa com seu wi-fi confiável antes de sair do local da antiga morada. Leve um dicionário ou um tradutor instantâneo.

30 anos em São Paulo preparam qualquer um para qualquer coisa. Já fui até para a Mongólia.

Eu consigo.

Nos tornamos ilhéus quando mudamos para uma ilha?

“Sou ilhéu; e, tanto ou mais do que a ilha, o ilhéu define-se por um rodeio de mar por todos os lados. Vivemos de peixe, da hora da maré e a ver navios”.

Vitorino Nemésio da Ilha Terceira nos Açores

Ou será ela nunca fará parte de nós como a urbanidade de São Paulo nunca tenha penetrado nas entranhas? Ou entrou e não me dei conta?

Parte da busca pelo El Dorado era o silêncio, que agora me vejo combatendo (a falta dele) com sorrisos insinceros.

Devolvi – na primeira noite- um relógio que fazia tic tac, daqueles antigos de pilha que habitava na sala.

Tirei as placas de não fumar e não jogar “objeto” no vaso sanitário. Opa! Bacio é como chama aqui.

Vai entender. Tem bacio, mas não tem tanque. Ele não entendeu o que era um tanque. Vou mostrar uma fotografia.

A casa é de lajota (ótima para lavar o chão), mas não tem ralo em lugar algum.

As tomadas estão acima (de qualquer suspeita?) dos olhos quase na altura do teto. Os eletrodomésticos são OVNIs que sobrevoam e necessitam se conectar o mais alto possível? É tudo drone?

Coloco tudo no prato do cultural, com alfavaca e betara assado.

Jake se sacode e vamos para a praia ver o pôr do sol.

Pelo menos não choveu hoje.

Os ingleses ficam felizes.

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